O Ensaio da Cegueira

Não. Eu não esqueci do título acima. Está em branco de propósito. Na última semana eu li o livro do grande José Saramago, “Ensaio Sobre a Cegueira” e ontem, depois de terminado o livro, vi o filme homônimo. Eu admiro o talento do Saramago para retratar a condição humana: ignorante (a caverna) animal, pecadora, indecisa (o evangelho segundo Jesus Cristo), e acima de tudo agora, CEGA.

“O pior cego é aquele que não quer ver”, já contempla o ditado. Não querendo comparar a ilustre obra ao pífio ditado, às vezes simplesmente não conseguimos enxergar mais o que está a nossa volta, não conseguimos entender, não conseguimos interpretar nem “ler” mensagem que estamos recebendo.

A sinopse “oifical” do livro é essa:

“Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma “treva branca” que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. O Ensaio Sobre a Cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam. José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Porém, a narrativa de Saramago é muito mais intensa. Primeiro a cegueira que acomete a todos no livro, exceto a uma pessoa, uma mulher, é uma cegueira branca, e não trevas profundas. É branca por que nós mesmos nos cegamos, nos permitimos cegar. Nos permitimos cegar quando somos bombardeados por propagandas que nos influenciam e ditam nossas necessidades, servindo a nós apenas a aceitação e a imaginação que é aquilo, realmente o que nós precisamos. Nós permitimos cegar ainda, por que não conseguimos enxergar a verdadeira realidade que nos rodeia: pessoas que fingem ser uma coisa que não são, criando um “personagem” que esconde o seu eu por detrás de atitudes, gestos e muito coméstico. Nos cegamos por que, diante de conceitos, de palavras de atitudes não conseguimos reconhecer a nós mesmos por detrás de tudo que somos transformados pela busca incessante à perfeição.

Cegos?? Cegos somos nós mesmos, animais que andam, que pensam. Cegos não tem timidez, não precisamos fingir o que não somos, por que já os outros não nos vêm. Cegos podemos liberar o nosso instinto animal, as nossas frustações, raivas e ressentimentos. Cegos, podemos dar vazão ao nosso verdadeiro eu: um animal, não diferente de todos os demais que, agem por instinto. Instinto esse que, muitas vezes, por falta de prática somos obrigados a nos adaptar, mostrar os animais que REALMENTE somos. Sem pudores, sem máscaras, sem vergonhas, apenas somos a essência de nosso eu veradadeiro, e não mais aquilo que queremos que os outros imaginem que somos. Afinal, cegos não vêm. De que adiantam então roupas, relógios, carros, falsos prazeres, falsos moralismos, falsos dizeres? Família?? Cegos não tem família. Família é uma convenção dos que enxergam, dos que querem se socializar. Cegos não se socializam, apenas se unem pela característica que (NÃO) têm em comum: a visão. Cegos, assim como animais, simplesmente andam por aí. Sem objetivo, sem rumo, sem PROPÓSITO. Cegos são bichos, são o que verdadeiramente somos em nosso interior, animais sem escrúpulos. Por que? Por que cegos não precisamos fingir uma “educação cômoda”, apenas para não incomodar, apenas para sermos sociáveis. Se já todos somos animais pra que banhar-nos todos os dias, pra que roupas, pra que banheiros??? Isso, tudo isso, é um comportamento social que mantemos pra esconder o que realmente somos: ANIMAIS.

Cegos, tal como os cachorros, não têm pai, não tem mãe, mulheres nem filhos. São apenas machos e fêmeas e filhotes. Afinal é isso que somos todos: ou um, ou outro, ou ainda outro. Que mais seríamos: crianças, adolescentes, jovens, adultos ou velhos?? Isso é mais uma divisão que nos classifica como produtos. Produtos que somos da sociedade que nos esconde por trás de bons modos e etiquetas. Na verdade é tudo isso é o que nos cega, que nos liberta, que nos faz não enxergar para poder sermos o que realmente somos por detrás dos olhos: BICHOS.

Quando não nos enxergam; quando não enxergamos, podemos mostrar verdadeiramente que é quem!!

Afinal de contas, tal como as trevas, também a luz um dia acaba!!

braile

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Um pensamento sobre “O Ensaio da Cegueira

  1. Prezado Enrico:

    Seu artigo retrata hoje o que vivemos, estamos em uma grande cegueira, a maioria das pessoas não querem ou acham cômodo não enxergar, pois é mais fácil serem guiados pelo “cão guia”, quem seriam estes cães: banqueiros, grandes empresários, governistas, ect.
    Chegamos em uma triste realidade, por que muitos não querem inovar, mudar ou criar..até quando vamos continuar assim? não sei, mas sei que enquanto isto se continuarmos conformados, estamos perdendo a batalha e cada vez mais os deixando ganhar espaço e invadindo nossas mentes,e, com isso, gerando outros fatores como medo, incertezas e fracassos. Devemos romper estas fendas.O primeiro passo é dar informações a essa gente, pois só lendo e passando por um novo processo cultural e educacional conseguiremos reverter este quadro.. mas também exite um outro fator, será que os grandes empresários, governistas querem pessoas “pensantes”? Pois a cada dia nos enchem de informações irrelevantes, nos programam e nos moldam com lixos que a princípio nos distrai e quando notamos já estamos com a fenda nos olhos e o principalmente na mente. Essa é uma grande luta, uma luta sem sangue, estamos em uma guerra com nosso interior e com quê eles querem que você compre, pense, leia, vote, assista ou ouça na maneira deles. Nesta luta ainda há tempos de revertemos este quadro.. se eu, você e ele, ou seja, se nós quisermos existirá vencedores, mas será uma grande batalha e as únicas armas serão força de vontade, conhecimento, esperança, inovação e sabedoria para assim conquistarmos a nossa vitória!

    Patrícia

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