Lições de Watergate.

“As pessoas reagem ao medo, e não ao amor – isso não é ensinado no catecismo, mas é verdade”

Richard Nixon.

Ontem eu assisti ao filme que concorreu o Oscar Frost/Nixon, um filme, obviamente baseado em fatos reais, mas que explica muito bem a natureza humana e o porque muitas vezes cometemos erros gravíssimos com a melhor das intenções. O filme é excelente, e se você conseguir enxergar as lições que aparecem por detrás dos diálogos friamente calculados, fica mais bonito ainda.

Richard Nixon foi o 37o presidente dos Estados Unidos, governou entre 1968 e 1972, quando renunciou antes de ser cassado por causa do escândalo de Watergate. O filme baseia-se na entrevista em que ele concedeu ao repórter David Frost, um jovem apresentador que via a entrevista como oportunidade para voltar aos tempos dourados nos EUA que tanto sentia falta.

No diálogo mais interessante do filme, que é uma ligação extra oficial de Nixon para Frost às vésperas de um dos dias da entrevista (foram quatro no total, com aproximadamente duas horas cada), eles falam sobre como a entrevista é a oportunidade deles, voltar a ter uma chance, cada qual em sua área. Porém, infelizmente nesse duelo, nesse embate, apenas um poderá sair vencedor e Nixon está totalmente determinado a massacrar Frost (na verdade de quatro dias de entrevistas, três foram um verdadeiro fracasso para Frost). Nixon quer de qualquer jeito voltar à política. Para ele, “estar aposentado” é ser inútil. David Frost não sabe (quase) nada de política, mas quer voltar aos anos dourados quando era reverenciado nos Estados Unidos e, quem sabe voltar a ter o seu programa exibido por lá (agora, contentava-se apenas com Austrália e Londres). Por isso, o resultado final da entrevista daria ao VENCEDOR uma nova imagem e outra chance.

Aqui entra a PRIMEIRA grande LIÇÃO do filme: AMEAÇAS PODEM SERVIR COMO MOTIVAÇÃO. Dizer ao seu adversário que você vai destruí-lo, que apenas um vencerá e insinuar que ele é inferior a você, pode despertar nele uma vontade doida de vencê-lo e com isso AGIR para que isso aconteça. Após deixar claro para Frost que apenas um sairia vencedor, que não pretendia perder e que iria pra cima como um trator, Nixon, inconscientemente, MOTIVOU David a, pela primeira vez, estudar os fatos e acontecimentos para que pudesse enfrentar de igual para igual o seu adversário. Foi graças a essa provocação, a essa intimidação que Frost se moveu. Talvez, se a ligação não tivesse acontecido, os fatos teriam acontecido de outra forma e Nixon poderia ter reciclado a sua imagem política. Porém, a provocação foi suficiente para que Frost decidisse estudar o seu adversário pela primeira vez.

A equipe de Nixon a todo momento enxergava a série de entrevistas para Frost apenas como uma nova oportunidade de se reerguer politicamente. Em nenhum momento passou pela cabeça de nenhum deles que David seria capaz de encurralar Nixo e forçosamente, fazê-lo pedir desculpas.  David Frost é encarado durante todo o filme como um apresentador imaturo, até mesmo pela sua equipe de produção e inteligência. E ele realmente o é. Enquanto uns estudam ele vai a lançamento de filmes, bailes, festas e noitadas. Ele era visto como um showman fraco que seria derrotado facilmente por Nixon, um homem esperto com falas dissuasivas e um político refugiado cheio de vontade de voltar ao cenário político. Aí vem o grande erro de Nixon e sua equipe e a SEGUNDA LIÇÃO que podemos tirar do filme: NUNCA DESDENHE DE SEUS RIVAIS. O fato de todos acreditarem na incompetência de David Frost fez, primeiramente que ele fosse escolhido, entre outros repórteres e canais de TV para realizar a entrevista. A equipe de Nixon acreditava que a entrevista para Frost seria uma gangorra ainda maior para o cenário político, por ele não ser um jornalista e sim um showman e ser aparentemente um homem fútil. Por isso, outras emissoras de TV foram preteridas e Frost conseguiu a entrevista que seria o seu degrau rumo à popularidade mundial. Se alguém da equipe de Nixon soubesse os reais interesses de Frost, bem como a sua obstinação para conseguir a entrevista, teriam percebidos que Frost não era tão burro assim, e deveria ter alguma carta na manga.

Na América, nenhum produtor acreditou em Frost. Nenhuma empresa de TV quis ajudar a patrocinar a entrevista que custou aproximadamente dois milhões de dólares. Porém, a recusa não foi motivo para afastar Frost de sua idéia genial, de fazer Nixon confessar diante das câmeras os seus atos. Já que não tinha o apoio das grande emissoras de TV, pagou maior parte das despesas, inclusive a bagatela de US$ 600.000,00 para o próprio Nixon aceitar fazer a entrevista, do seu bolso. A única ajuda que David teve foi de pequenos patrocinadores, mas mesmo assim, muitos deles se recusaram a continuar bancando a “idéia maluca” de Frost, quando ele foi pedir mais dinheiro. Aqui vai a TERCEIRA LIÇÃO. SEJA DETERMINADO. Inúmeras barreiras cruzaram o caminho de Frost, mas ele via a entrevista como uma oportunidade única e tinha certeza de que seria um “marco histórico”, por isso, não poupou esforços. NÃO POUPAR ESFORÇOS é a terceira lição que aprendemos com o filme, mesmo que essa determinação arrisque o seu futuro, seja DETERMINADO.

David Frost sabia que não poderia nunca dominar seis anos de mandato de Nixon em apenas dois meses. Ele sabia que nada sabia de política. Sabia ainda que seria necessário ter ajuda de gente competente para estudar as perguntas que seriam feitas ao Nixon para que ele não fosse massacrado por não ter informações suficientes. Para isso ele contou com a ajuda de dois especialistas, que foram a fundo na história de Nixon como presidente para buscar as falhas e as brexas para perguntas que poderiam deixar o velho em Xeque. Aqui temos a QUARTA LIÇÃO do filme. TENHA UMA EQUIPE MELHOR DO QUE VOCÊ. Use e ABUSE de uma equipe de inteligência. Não saber não é vergonha nem defeito, mas conhecer quem sabe e atraí-los para junto de si, ainda que sejam pessoas com pensamentos totalmente diferentes que o seu é uma atitude de quem quer vencer. Juntar uma equipe de excelência que seja melhor do que você é o papel que todo lider tem OBRGAÇÃO de realizar. E nesse ponto, David foi bem inteligente, chamou especialistas que sabiam mais que ele e os fez trabalhar para ele prometendo cumprir a “sede de justiça” do país. Frost soube reunir as pessoas certas com informações certas para ajudá-lo a encurralar Nixon. Delegar o estudo das informações a uma equipe de inteligência é a quarta lição que aprendemos com o filme.

A despreparação pode ser traiçoeira. Acreditar que você pode improvisar na hora, ou que as perguntas que estão no papel são suficientes para o sucesso da entrevista foi um erro quase FATAL de Frost. Nos três primeiros encontros, David foi massacrado por uma oratória extensa e massante de Nixon, além de respostas alheias às perguntas que sempre mostravam o ex-presidente como um patriota injustiçado. As divagações de Nixon, no primeiro dia de entrevistas por exemplo, demoraram quase meia hora para cada pergunta que Frost realizava. Isso deu total controle e domínio a Nixon em todas as entrevistas, exceto a última, por que nessa, David havia estudado e muito os acontecimentos. A QUINTA e última LIÇÃO que podemos tirar com o filme é: ESTUDE seus passos, estude o seu adversário, estude você, estude a sua abordagem, estude um plano B, estude como, quando e por que fazer o que tem que ser feito. Depois que David estudou, pode encurralar Nixon com apenas uma pergunta. Isso por que estudou as perguntas certas, estudou os fatos, estudou a postura de seu adversário e estudou o cenário. ESTUDE!

Com essa entrevista Frost conseguiu obter de Nixon um pedido de desculpas à Nação, além de uma confissão de que ele havia participado de esquemas de corrupção e o desabafo de ter cometido todos esses erros com a melhor intenção para o país.

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