Loucuras Bem-Vindas.

Ricardo Bellino é atualmente presidente da Trump Reality Brazil. Aos 21 anos, pensou em trazer a megaagência de modelos americana Elite Models para o Brasil, sem falar inglês nem ter um tostão no bolso. Bellino apostou nessa idéia mirabolante, abandonou a faculdade de economia, mudou-se para São Paulo e teve sucesso, a ponto de se tornar amigo pessoal de John Casablancas, dono da Elite. Bellino trouxe também para o País a campanha das camisetas do câncer de mama, colocando o famoso símbolo do alvo no peito de milhares de brasileiras. Atualmente, aos 38 anos, o empresário encara o seu maior desafio, que é construir o primeiro empreendimento imobiliário do bilionário americano Donald Trump no Brasil. O Villa Trump, que será erguido em Itatiba, é um projeto de US$ 40 milhões. Vai ter um campo de golfe desenvolvido por Jack Nicklaus, considerado o maior golfista de todos os tempos, hotel de alto padrão, spa e tudo o mais de luxo que o dinheiro pode oferecer para 500 sócios escolhidos a dedo.

Abaixo, segue a entrevista que Bellino concedeu à Revista IstoÉ falando de seus projetos e dá dicas de como transformar uma idéia num empreendimento de sucesso e de como usá-la nas empresas. A entrevista é de 2004, mas a leitura é obrigatória para termos uma noção dO Poder das Idéias, titulo de seu livro publicado pela editora Campus.

ISTOÉ – Qual foi o seu primeiro projeto de sucesso?
Ricardo Bellino –
Quando tinha 12 anos percebi que meus colegas de escola traziam dos EUA videogames Atari e videocassetes. Eram aparelhos adaptados ao sistema americano de vídeo, o NTSC, incompatível com o sistema brasileiro, o Palm-m. Fiz um acordo com uma oficina próxima à escola que se dedicava à transcodificação. Eu achava clientes, levava os aparelhos para a loja de ônibus e ficava com parte do lucro.

ISTOÉ – O que o sr. fez com o dinheiro?
Bellino –
Troquei tudo em dólares por causa da inflação. Quando tinha 15 anos, usei esse dinheiro para comprar equipamentos de som. Como eu era muito tímido, ia às festas e, em vez de tirar as meninas para dançar, ficava conversando com o DJ. Com isso, acabei participando de uma equipe de som. Meu negócio era alugar equipamento para festas, mas fazia também o papel de animador e relações-públicas. Isso me fez ter a idéia de lançar camisetas temáticas e vendê-las. Foi um sucesso. Num GP Brasil de Fórmula 1 que o Piquet venceu, eu e meus amigos vendemos até as camisetas do corpo.

ISTOÉ – Como veio a idéia de trazer a Elite Models para o Brasil?
Bellino –
Eu frequentava bailes e desfiles e fiquei encantado com esse negócio. Na casa de um amigo, li uma revista de moda francesa e lá estava a história da Elite. Fiquei extasiado. Li nas entrelinhas da matéria que havia um concurso de modelos. Fiquei alucinado com a possibilidade de trazer um negócio daqueles para o Brasil. Tinha 21 anos. Percebi que a agência poderia aproveitar os talentos nacionais.

ISTOÉ – Qual foi a reação de seus parentes e amigos quando
o sr. falou da Elite?
Bellino –
Acharam a idéia completamente maluca, uma loucura total. Achavam que não tinha lógica eu tentar estabelecer uma base no Brasil para um negócio enorme, que faturava US$ 100 milhões por ano, apenas por ter tido uma vontade.

ISTOÉ – E o sr. não desistiu?
Bellino –
Não. Escrevi uma carta ao John Casablancas, fundador da empresa, pedi para um amigo traduzir para mim e mandei por telex. No terceiro telex, a secretária confirmou o recebimento da carta e disse que o John responderia na volta de uma viagem de negócios. Propus então uma reunião, mesmo sem ter um tostão no bolso.

ISTOÉ – Como o sr. foi para Nova York?
Bellino –
Um amigo havia lido um artigo sobre uma empresa de entregas, a DHL, que oferecia a jovens estudantes a oportunidade de viajar para os EUA desde que levassem só a mala de mão. No dia seguinte, consegui a passagem. Montei um kit que continha um vídeo com as garotas do Fantástico e até uma carta de opção para a compra de um prédio onde eu imaginava implantar a Elite. Fui recebido em Nova York pelo irmão do John Casablancas, o Fernando, que presidia a empresa que cuidava da venda de franquias e licenciamento. Ele queria me vender uma franquia. Eu dizia que buscava uma parceria. Na sexta reunião, ele chamou o John para ver se chegávamos a um entendimento. Aí abri o jogo. Disse “John, deixa eu explicar: eu venho aqui como carteiro da DHL, fico no albergue da juventude e como hambúrguer. Não tenho um tostão para comprar franquia nenhuma. Quero arranjar um patrocinador, levar o concurso da Elite para o Brasil, me capitalizar e montar a empresa.” Ele gostou da idéia. Depois de dois meses, me enviou material de apoio e uma carta em que me autorizava a falar em nome da empresa. Era um sonho se tornando realidade.

ISTOÉ – E o que aconteceu de volta ao Brasil?
Bellino –
Depois de quatro ou cinco meses percorrendo as mais diversas empresas, encontrei o Nelson Alvarenga, dono da Ellus, e houve uma empatia imediata. Sua rede de lojas estava crescendo muito e ele buscava uma estratégia diferente, saindo da mídia convencional e procurando algo que falasse mais ao público-alvo da marca, o jovem. Fizemos o primeiro concurso em 1988. Foi um enorme sucesso. Renovamos o contrato por mais dois anos, o Alvarenga se tornou meu sócio financeiro e lançamos a Elite no Brasil.

ISTOÉ – O que o faz persistir nas idéias que tem?
Bellino –
Eu sempre fui muito determinado nos desafios. Para mim, todas as tentativas de me desencorajar se transformavam em motivação. Se tinham tanta convicção em tentar me desmotivar, era porque o assunto era tão bom que merecia meu engajamento. Eu já sabia que era difícil e complicado. Ninguém estava contando nada de novo. Tentava encarar as tentativas de me desencorajar de uma forma positiva, numa motivação que me dava mais força e determinação para continuar.

ISTOÉ – Como identificar uma boa idéia?
Bellino –
Não tenho um manual para fazer essa avaliação. Percebo as oportunidades que determinado assunto tem naquele momento. Uma boa idéia é contextualizada. No caso da Elite, via algumas
coisas acontecerem e percebi uma oportunidade. Se vejo que a melhor alternativa é um projeto muito ousado e grande, não me inibo.

ISTOÉ – Que conselhos o sr. tenta passar ao leitor de seu livro?
Bellino –
Quero dividir minhas experiências e provocar uma reflexão nas pessoas. Elas precisam estar prontas para eventualmente identificar uma oportunidade e se lançar num processo de transformar aquela idéia num negócio. Fiz questão de abrir um espaço no livro para que meus parceiros, sócios e outras pessoas de sucesso expressassem suas idéias e contassem como as transformaram em realidade. Não quero estabelecer uma teoria. Quero mostrar que as idéias têm aplicação prática. Isso só depende de como você se posiciona diante das situações. A principal mensagem do livro é que a pessoa tem primeiro que encontrar um equilíbrio emocional para que, a partir desse equilíbrio, minimize suas deficiências e potencialize suas virtudes.

ISTOÉ – A pessoa tem que estar apaixonada pela idéia ou tem que manter uma certa distância e racionalidade em relação a ela?
Bellino –
Se o dono da idéia não estiver apaixonado, não vai passar do primeiro estágio. O primeiro impulso tem que ser algo que transcende a questão cartesiana ou pragmática da idéia. Mas isso tem que ser contraposto com uma visão de viabilidade na hora de concretizar esses projetos.

ISTOÉ – O sr. é monogâmico no campo das idéias?
Bellino –
Não. Posso me dividir entre várias. O mesmo projeto pode estar baseado em diversas idéias. Consigo também criar uma relação com elas de não posse. Não me sinto o dono da idéia. Um dos segredos para o sucesso dos meus projetos foi identificar pessoas que acreditavam que aquela idéia era possível e se sentissem co-autoras dela. É importantíssimo que se construa durante o desenvolvimento de uma idéia essa equipe de sócios ou parceiros que vibrem na mesma sintonia e acreditem que ela é possível e que cada um traga um componente para aperfeiçoar o plano de ação. Ninguém é capaz de jogar bem nas 11 posições.

ISTOÉ – Como expor uma boa idéia?
Bellino –
No livro, faço uma provocação ao sistema que existe hoje nas empresas. Há diversas tentativas dos departamentos de recursos humanos de buscar a interação dos funcionários e fazê-los se expressar. Mas criam um constrangimento a partir do momento que estabelecem um formato para se transmitir a idéia, normalmente escrito num formulário ou num e-mail. Nem todo mundo tem facilidade para escrever. Às vezes a idéia é tão simples que não tem nem como colocá-la no papel. Uma conversa de cinco minutos funciona melhor para explicá-la. A solução dos problemas de sua empresa pode estar na mão do faxineiro.

ISTOÉ – Como melhorar essa comunicação?
Bellino –
Minha sugestão é a criação do cargo de Diretor de Idéias, o DI, que pode assumir o papel de ouvido da empresa. As pessoas têm que ter com ele uma relação de cumplicidade para que se sintam à vontade para contar as coisas sem constrangimento e sem medo de perder o emprego.

ISTOÉ – Como nasceu a Webbie Tookay, primeira modelo
virtual do mundo?
Bellino –
A idéia veio de um artigo que li na revista Time sobre o mercado de publicidade, que estava ficando saturado das caras das top models tradicionais. No final da matéria a pergunta era: quem seria a cara do ano 2000? Aí eu vi uma oportunidade de criar uma cara que fosse uma representação daquela virada. Fiz uma pesquisa nos principais estúdios de computação gráfica do mundo e me indicaram o site de um artista sueco. Em duas semanas, nascia a Webbie Tookay. O John Casablancas ficou como porta-voz dela. Em menos de 30 dias, assinou contrato de US$ 60 mil com a Nokia para estrelar uma campanha de celular. A Webbie foi assunto nos principais jornais e revistas do mundo todo. Foi a prova de que uma boa idéia não tem fronteiras.

ISTOÉ – O que é mais difícil: ter uma idéia ou executá-la?
Bellino –
Ter idéias todo mundo tem. Agora, acreditar que se pode transformar aquilo em algo concreto é o maior desafio e o que faz a diferença. Uma grande parte das pessoas desiste já na idéia. Vê
que é algo grande e imagina que é impossível e não se sente capaz de fazer e desiste. Tem outro grupo que acredita um pouco mais, mas na primeira negativa que ouve encontra um conforto e desiste também. Se deixam levar por terceiros.

ISTOÉ – Qual é o maior inimigo de uma boa idéia?
Bellino –
As influências de pessoas que não conseguem ter a mesma visão que você e tratam de detonar sua idéia. Quando alguém diz que você está louco, está questionando sua capacidade. Mas quem tem que colocar limites é a própria pessoa. Ouço com mais atenção as críticas que os elogios, para repensar alguns movimentos. Não dou a menor atenção para aquela crítica que tem a intenção de inibir alguma iniciativa. No meu livro, agradeço a todos que tentaram me desmotivar de alguma idéia. Não tem prazer melhor do que escutar daquela mesma pessoa um cumprimento depois de alcançar o sucesso.

ISTOÉ – Qual é sua fonte de inspiração?
Bellino –
A grande maioria das minhas idéias veio da mídia, algo que está à disposição de qualquer um. Não tenho nenhuma fonte especial. Você não precisa necessariamente ser um entendido no assunto de sua idéia, mas precisa se assegurar de que tem um time de especialistas a sua volta na hora da implementação do projeto.

ISTOÉ – De onde surgiu a idéia do Villa Trump?
Bellino –
Não jogo golfe, eu nunca havia participado de um projeto imobiliário. O que aconteceu foi uma coincidência. Um dia, meu vizinho em Itatiba me propôs vender uma área rural ao John Casablancas. Tive dois impulsos. Um, dizer que o John não tinha interesse. O segundo foi dizer na mesma hora “vamos fazer aqui o primeiro empreendimento do Trump no Brasil”. Já tinha ouvido falar de um empreendimento de golfe
em Itu. Sabia também que o Trump fazia negócio fora dos EUA e pensei então em fincar a bandeira do Trump no Brasil. Na hora, meu amigo pensou que eu estivesse louco, mas topou participar do negócio.
O golfe é pequeno ainda no Brasil, mas demonstra sinais de que tem
um potencial muito importante.

ISTOÉ – E como essa idéia começou a virar realidade?
Bellino –
Um mês depois daquela conversa, contando com a ajuda do John Casablancas, marquei uma reunião com o Trump e fechamos o negócio. Jack Nicklaus já está fazendo o projeto do campo. Teremos investimentos de US$ 40 milhões.

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