O Segredo de um Bom Negócio.

Soumodip Sarkar é considerado um dos 100 maiores especialistas mundiais em inovação pelo World Economic Forum. Sarkar, de 44 anos, esteve presente no evento promovido em São Paulo pela Fundação Nacional de Qualidade.

Sarkar descobriu, em suas pesquisas com 2 mil empresas, que os empreendedores se acham mais inovadores do que de fato são. Encontrar negócios realmente diferenciados pode ser tão raro quanto ver um palestrante empresarial usando uma gravata estampada com um personagem de cartoon. Segundo os cálculos de Sarkar, no máximo 5% das companhias vendem produtos ou serviços únicos.

Quem começa um empreendimento pensando em ser “o próximo Google” corre grande risco de dar errado. Melhor montar um projeto banal, mas bem fundamentado. Ideias para aprimorar o negócio são sempre bem-vindas, mas vêm depois. Sarkar dá seus conselhos em português de Portugal. Mora no país há dez anos. Doutor em economia pela Universidade de Northeastern, trabalhou no Vietnã antes de se apaixonar por uma portuguesa, com quem tem quatro filhos.

Abaixo, a íntegra da entrevista que Sarkar deu a PEGN.

É preciso ter uma grande ideia para empreender?

Inicialmente, eu achava que sim. Mas, depois que comecei a estudar o assunto, descobri que a maior parte das empresas não é muito inovadora. Um levantamento da revista Forbes mostra que os negócios mais rentáveis nos Estados Unidos são escritórios de contabilidade e serviços legais. Não há nada de revolucionário nesses nichos de mercado. Em estudo com 100 empreendedores de sucesso na lista das maiores empresas dos EUA, menos de 10% tinha começado com ideias originais. Grande parte se inspirou em produtos e serviços já existentes e procurou melhorá-los significativamente.

Então, qual o segredo de um bom negócio?

Em estudo feito pela Comissão Nacional de Empreendedorismo dos EUA, nove em cada dez empreendedores de sucesso citaram como chave “a execução excepcional de uma ideia ordinária”. Ou seja, o mais importante é começar com algum projeto que seja viável — pode ser uma ideia banal — e aprender com a experiência. A inovação vem depois. Eu acredito que mais cedo ou mais tarde o empreendedor vai tentar fazer diferente.

Uma empresa pode ter sucesso sem nunca inovar?

Pode, mas só em casos excepcionais, de monopólios sobre recursos naturais. A maioria das empresas, em algum momento, vai ter que inovar. Não há como ficar parado. Muitas empresas estão fazendo tudo direitinho, mas então vem uma nova tecnologia, como o Skype, que causa uma disrupção de mercado. Se você não estiver atento ao que está acontecendo em volta, algum concorrente certamente vai estar. Esse é o perigo de não inovar.

Como ficar atento?

Algumas empresas grandes contam com uma área dedicada à inovação e, assim, ficam atentas às novas descobertas. As empresas menores têm hoje, como oportunidade, a inovação aberta. Elas podem procurar parceiros internacionais para investir em ideias em conjunto. Eu vejo o empreendedorismo como criatividade. Acredito que todas as pessoas são criativas. Mas às vezes não percebem. É preciso desenvolver um ambiente para estimular a inovação.

Ao inovar não se corre mais riscos e se erra com maior frequência?

Sim, mas é o que vai fazer a diferença entre ter ou não um negócio economicamente sustentável. Não é fácil. Implica mudanças, investimento de recursos. De qualquer forma, é bom permitir que líderes e funcionários corram riscos e possam falhar, porque é assim que vão aprender. Eu estive nos EUA no ano passado, no World Economic Forum, e foi apresentado o exemplo de uma multinacional que analisa os candidatos a uma vaga pelo currículo das falhas e não pelo currículo dos sucessos.

Fala-se tanto em inovação, mas, para o empreendedor, parece muitas vezes algo misterioso e inalcançável.

Inovar é aplicar uma ideia de um jeito novo e criar valor com isso. A sustentabilidade econômica é muito importante. Portanto, em vez de o empreendedor se preocupar com a palavra inovação, ele deveria focar em duas perguntas: 1) Como eu posso acrescentar valor? A resposta talvez seja uma novidade para o consumidor, mas pode ser algo interno que, por exemplo, reduza custos. 2) Como posso fazer a mudança de forma contínua? Muitas vezes, os empreendedores dizem: “O problema é que não estou conseguindo vender o produto; o mercado não está aceitando”. Então eles têm que perguntar: “Por que não?”. Em vez de começar com “vou inovar”, o empreendedor deve ir ao fim da história e questionar: “Qual é o problema que eu tenho?” Aí ele vai voltar para trás e encontrar a solução. Tem que fazer perguntas — e muitos não fazem.

O senhor criou um modelo para que as empresas façam essas perguntas — e cheguem às respostas?

Eu não dou soluções, eu faço perguntas que permitem às empresas olharem para o espelho. Descobri, após uma análise com 2 mil empresas, que a maioria delas acredita que é mais inovadora do que de fato é. Saber isso é um passo muito importante. Então, elas podem analisar o que querem, mas apenas 5% — no máximo — vão conseguir ser tão diferenciadas que quase não terão concorrentes. Para a maioria, apostar em uma mudança para alcançar uma posição como essa não vale a pena. Investir num modelo totalmente novo significa perder o mercado já conquistado.

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