Os desafios da administração e do empreendedorismo.

O artigo que vou publicar abaixo é inedito. Apesar de ter sido escrito em 2008. A ideia deste artigo era ser um artigo conjunto. Eu e mais dois colaboradores iriamos escrever sobre o “desafios da administração comtemporânea”. Era pra mostrar como, muitas vezes, o que a gente aprende na faculdade não está de acordo com a realidade do que os profissionais precisam ao entrar no mercado de trabalho. E uma das pessoas que iriam escrever uma parte desse artigo era justamente um coordenador de uma faculdade de administração.

A ideia era bacanosa. Ia sair no jornal da faculdade de administração, pra garotada que faz o curso pensar refletir. E quem sabe, mudar um pouco a coisa.

Mas o artigo não foi pra frente. O projeto foi abandonado. Acho que eles acharam que meu artigo ia muito direto ao ponto e tinha uma crítica muito forte às instituições de ensino. E o pior é que eu tentei ser, em um certo ponto, ser até meio suave nas minhas observações.

O artigo não tem um final escrito. E também não vou escrever.

O final dele era pra ser escrito a seis mãos (porque eram três colaboradores), mas não foi. Assim, quem quiser pode ajudar a escrever o final desse artigo. A interpretação é livre. As críticas também. Só acho que, algumas faculdades, e nelas incluo o curso de administração, ensinam coisas que não seriam úteis nem no século XXVIII.

Se você se enxerga nesse artigo, ou enxerga a sua faculdade, corra como se não existesse o amanhã! Você pode perceber, tarde demais, que o seu diploma não serviu pra nada.

O sistema de ensino brasileiro precisa de uma reforma. E a melhor forma de fazê-lo é de dentro pra fora!

“Todas as Grandes Verdades Começam como Blasfêmias”.
George Bernard Shaw.

 Aceite uma verdade: A administração como nós conhecemos morreu. Se não morreu ainda, falta pouco. Sim, sabemos que isso parece uma heresia, mas mostramos a você como chegamos a essa conclusão: 55,4% dos empreendedores brasileiros o fazem por NECESSIDADE, e não por PAIXÃO ou VOCAÇÃO. Vale dizer que esses, na grande maioria das vezes não possuem nenhum estudo sobre administração, empreendedorismo ou  têm a mínima noção de como montar uma empresa. Ou seja, pessoas abrem empresas e criam negócios em mais de 50% das vezes por dificuldade de encontrar trabalho.

E não é com nenhum espanto que as Micro e Pequenas Empresas já empregam a maior parte da mão-de-obra no país. Por isso, acreditamos que a missão de Administração no século XXI é muito mais o fazejamento do que apenas o planejamento. Foi-se o tempo em que Maquiavel era o grande mentor da administração contemporânea.

Grandes empreendedores com histórias e teorias de sucesso têm dicas bem mais interessantes do que pensadores da antiguidade. As armas têm que evoluir conforme a guerra. Imaginemos uma terceira grande guerra hoje. Imagine que, nessa mesma guerra, um país utilize as mesmas “garruchas” e arsenais da primeira, o resultado é previsível, MASSACRE TOTAL. E é desse jeito que muitos empreendedores enxergam a Administração hoje, como uma ciência que estuda a realidade com ferramentas pré-históricas.

Em um século dominado por gamers, Orkut, MSN e iPods, não podemos mais seguir conselhos de um Maquiavel de O Príncipe, que por não ter nascido em um berço “tão dourado como queria”, resolveu que cresceria ajudando os mais fortes a USAR os mais fracos. Da mesma forma, não podemos forçar alunos de quinta série a ler Dom Casmurro, um livro que é dificílimo de ler e incompreensível para as crianças, alem de chato, mesmo ele sendo um grande clássico da literatura brasileira. Algumas (quase todas) palavras ali já nem mais existem. O resultado? 1.8% os brasileiros lêm ao menos um livro por ano. Temos que utilizar o tempo atual para educarmos os novos profissionais que trilharão o rumo do país. Ao invés de ferramentas “antepassadas”, usarmos ferramentas ATUAIS.

O menino não gosta de Dom Casmurro, Vidas Secas e companhia limitada, mas ADORA Harry Potter, O Crepúsculo e Senhor dos Anéis. Adoram gibis e mangás japoneses. Será que é impossível despertar o hábito da leitura nos brasileiros, ou é tudo questão de APLICAR ferramentas NOVAS a pessoas novas? Somente gostando de ler livros legais, é que as pessoas terão coragem de ler livros chatos.

O que isso tem a ver com Administração? MUITO! O curso de Administração usa autores antigos, crenças antigas e TEORIAS velhas para transformar jovens talentos em profissionais que não conseguem aplicar a teoria em prática. Nosso século é DOMINADO por profissionais que não estudaram, inclusive o homem mais rico do mundo: Bill Gates, que voltou ao topo com a crise econômica, sem faculdades; Steve Jobs, CEO da empresa mais INOVADORA do mundo abandonou a faculdade por que a achava um desperdício de dinheiro, David Portes que começou sua fortuna com R$: 12,00 vendendo balas, o Alexandre da Cacau Show, que não teve medo do desafio e Adelson de Sousa que criou a maior editora de mídia especializada do Brasil, a ItMídia apenas com a oitava série do ensino fundamental. Esses são os novos líderes do século XXI.

Temos plena consciência de que a Administração ainda pode ser essencial para transformar pessoas em empreendedoras e AJUDAR os negócios POR NECESSIDADE a se transformarem em GRANDES NEGÓCIOS. Como?

EDUCAR os novos profissionais conforme a sociedade. Internet, Blogs, Comunidades e Empreendedorismo. Precisamos de muito mais do que Empretecs da vida, precisamos de pessoas com senso de urgência e cultura inovadora. Precisamos disso já! O que você vai fazer pra transformar o curso de Administração em uma nova ferramenta de transformação, aprendizado e aplicação do Fazejamento e da Inovação nos negócios?

Histórias Empreendedoras, Volume I.

Eu vou passar a contar por aqui algumas histórias de amigos, ou conhecidos, ou de pessoas que eu vejo passar pela rua, e que eu fico conhecendo e passo a admirar.

Quando eu escutava as pessoas dizendo pra começar a empreender com nada, pra dar os seus pulos e começar com R$ 1.000,00, eu tinha dificuldades pra visualizar isso. Geralmente, por que essas pessoas não começaram com essa pequena quantia. É o típico caso de “faça o que eu digo, mas não o que eu faço”, ou seja, tente começar com milzinho, se conseguir, mérito seu. Eu preferi juntar um pouco mais de capital.

Mas, essa minha concepção mudou depois que eu conheci o Edison. Um simples revendedor de gás. De gás, de água, de cloro, de produtos de limpeza, de linguiça, de queijo, de várias coisas.

E ele faz tudo isso, com apenas uma bicicleta. Ele mesmo compra o cloro e prepara os sabões e produtos de limpeza.

E como ele começou?

Ele começou indo até um depósito de gás da marca X, que não interessa aqui divulgar a marca e se oferecendo para ser revendedor. Com apenas uma bicicleta, ele foi vendendo para os vizinhos e, com isso passou para as águas. Depois, na estratégia de promoção, começou a comprar o cloro. Quando uma pessoa comprava um gás, ganhava um litro de cloro.

Quando os seus vizinhos todos compravam gás dele, chegou a hora de expandir. Expandir pra entregar em outros bairros, em localidades próximas, com a ajuda da sua fiel escudeira, a bicicleta.

E Edison começou com os imãs de geladeira. Que ele mesmo distribuia. Depois que entregava o último gás, lá pelas 22:00h, começava a distribuir os imãs pelos bairros vizinhos. Um imã simples. Dizendo apenas “Disque Gás e ganhe um litro de cloro. Temos também água e produtos de limpeza”. Um imã simples, objetivo (divulgava o produto e oferecia um brinde), que ele fazia a um custo muito baixo e que ele mesmo distribuia, porque não confiava o trabalho de panfletagem na mão dos outros, o que realmente é muito arriscado e que rapidamente da resultados.

E os resultados da panfletagem foi aparecendo. E com isso, ele contratou uma pessoa pra atender ao telefone (que estava nos imãs) e concentrou-se apenas nas entregas, com a sua bicicleta, que sempre lhe acompanhava. Com as entregas aumentando, ele vendia mais e, fazia mais imãs e panfletava ainda mais.

Depois dos imãs, foi a vez do carro de som. Começou a circular aos Domingos pelo seu bairro e toda redondeza de bairros vizinhos. Começando na parte da manhã e indo até o final da tarde. Anunciava todos os seus produtos e ainda sorteva brindes no final do mês pra quem comprava QUALQUER produto que ele vendia (do gás, ao produto mais barato).

Eu vou começar a comentar essa história por aqui, porque ela já chegou aonde eu queria. Um cara e uma bicicleta hoje entregam mais de cinquenta butijões de gás por dia (fora os outros produtos).

Eu vejo administrador formado nessas faculdades de plástico que têm medo de empreender. Já convivi com gente assim. Gente que queria trabalhar para os outros, tentar juntar um dinheirinho e, depois abrir uma coisinha aqui, colocar duas ou três pessoas para trabalhar pra ela e, CONTINUAR trabalhando pros outros. A pessoa prefere empregar a sua mão-de-obra ajudando os outros, do que ajudar a si mesmo.

Pessoas que, mesmo após quatro anos de faculdade (em média), mais dois anos de curso disso, um ano de curso daquilo, ainda não se sente SEGURO para arriscar em algo, em criar algo. Primeiro, com medo de quebrar. Segundo, com medo do pouco dinheiro.

Por uma regra lógica, mas que podemos chamar de falácia, não era pra, quanto mais estudada uma pessoa ser, menos chance de errar ela ter?

Pelo visto não. Primeiro pelos curriculuns ridículos que as faculdades ensinam. Uma faculdade ensina antropologia aos alunos de administração, ensina contabilidade, ensina introdução ao direito, ensina introdução ao marketing, e não se aprofunda em nada. É tudo um pouquinho. E muito de nada.

Oras, porque ensinar a droga de antropologia – se o que é estudado lá não tem nada  a ver com o COMPORTAMENTO do consumidor, ou empreendedor, e não ensinar como conseguir financiamento? Porque ensinar estatística blá, blá, blá, CRM e Sistemas da Informação, se não ensina o futuro administrador a fazer um plano de negócios, a elaborar uma presentation para vender um projeto, um plano de ação.

Ei! O administrador sai da faculdade da mesma maneira que o aluno sai do ensino médio quando não faz um curso técnico: sabendo um pouquinho de coisa nenhuma.

O Edison, não sei até quando ele estudou. Acho que no máximo, um ensino médio incompleto.

E ele sabe, melhor do que muito administrador, sobre um mix de marketing que muitos ignoram: propaganda e promoção.

Eu vejo, todos os dias, administradores recém-saídos de suas faculdades abrindo empresas, abrindo negócios, e achando que os clientes virão por si só. Que vão brotar, que vão passar em frente e comprar. Bem, isso até pode acontecer, mas você precisa de audiência.

Mesmo que a sua estratégia seja o marketing boca-a-boca, você precisa gerar audiência para que ela ocorra. Ninguém fazendo boca-a-boca pra muitos, é igual a nada, é o mesmo que multiplicar qualquer coisa por zero.

Administradores ficam muito enraizados em planos financeiros, em custos, margens, fluxos-de-caixa, e esquecem das vendas, das entradas, do marketing, das ações que geram vendas.

Administradores aprendem Conjuntura Econômica, Tecnologia e Sociedade, Jogos Empresarias, enquanto deveriam estar aprendendo sobre vendas, sobre como vender, como trazer lucro, dinheiro, pra depois sim estruturar-se financeiramente.

Se Steve Jobs e Wozniak tivessem atentos à conjuntura econômica da época em que lançaram o primeiro computador pessoal da Apple, será que hoje teríamos o iPad, o iPhone, e todos os produtos da maçã?

Eu odeio o exemplo de Zuckerberg e o Facebook por achar a estória um tanto quanto suja. Mas, se ele estivesse atento à essas conjunturas ele seria considerado pela Forbes o cara do ano de 2010?

Caramba. Danem-se as conjuturas, as matemáticas. Tem gente investindo dinheiro em empresas que vão ao contrário de todas as lógicas matemáticas e conjunturais porque compram ideias, e não relatórios financeiros e essa baboseira de dossiês.

E o cara, empreendedor nato, com a sua bicicleta, e nenhum curso de administração ou marketing sabe o quanto é necessário divulgar a sua marca, a sua história, os seus produtos para atrair novos clientes.

Sabe também que precisa tratar bem esses clientes (e nessa ideia, ele da algumas coisas de brinde: cloro, desinfetante e sabão) para que eles não comprem apenas uma vez, virem clientes, fãs e entusiastas (estágio onde o marketing boca-a-boca começa). Sabe que quanto mais entusiastas, melhor e que, quanto mais divulgação, mais oportunidade de divulgar o seu trabalho e transformar os potenciais clientes em fãs. Sabe que, quando o ciclo se completa, quando um cliente vira fã e indica, outras pessoas compram e, se ele fizer tudo certo, novos fãs, agindo como um ciclo vicioso.

Uau! Isso é um milagre que ele aprendeu na faculdade? Não. Isso é uma coisa que ele fez pra aumentar as vendas. Experimentou sem saber o quanto ia dar certo e, viu os resultados. E ele vai experimentando e colhendo resultados. O que da mais resultados, recebe mais investimentos da próxima vez.

O que da mais resultado? O envolvimento dele nas vendas e no aumento delas, ou ele ficar apenas controlando o fluxo de caixa em uma planilha qualquer e reclamando de um dia ruim?!?

Tem coisas que a escola de administração não ensinam. Elas ensinam o cara a ser um administrador (?), mas não um criador, um empreendedor. Ensinam o aluno a administrar sem ter contato com as vendas, sem aprofundar o marketing, apenas com relatórios, reuniões e nomes bonitos. O resto é milagre.

Hey, administradores, venham aprender a colocar a mão na massa, venham ter uma aula de propaganda, de divulgação, de marketing, de promoção e propaganda com o Edison. Vocês vão aprender que existem coisas muito mais importantes do que um relatório mensal de vendas com um logotipo timbrado ao fundo.

Comece fazendo. Controle quando começar a crescer.

Viva o empreendedorismo do Edison. Viva a faculdade que ele não fez e que, poderia ter destruido as suas vendas de mais de cinquenta butijões de gás por dia (pequeno cálculo matemático 50 X R$42,00 = R$ 2100 – mas essa matemática ele aprendeu na escola, não precisou de faculdade).

Que o Brasil tenha, em um futuro próximo, mais empreendedores do que administradores. Precisamos de pessoas de chinelo e camiseta fazendo, e não de engomadinhos de terno confabulando.

Pra finalizar, o Histórias Empreendedoras será uma coleção de histórias de pessoas que eu conheço, ou que vejo fazendo coisas relevantes e crescendo. Essas pessoas podem, ou não, ter um nível educacional avançado. Elas, as pessoas e as histórias, tendem a ensinar conceitos básicos de estratégia, crescimento, planejamento, vendas e marketing, de uma forma que as escolas não ensinam: simples, rápido e objetivamente. No caso do Edison, além do comportamento altamente empreendedor (comece com pouco: uma bicicleta), tivemos uma pequena aula de como criar audiência e fazer propaganda com baixo custo e de forma eficaz.

O show não pode parar….

Óbvio!

Como vocês puderam perceber, o blog tá de volta.

Há um ano atrás, eu tive que escolher entre o blog e a minha rotina de quase vinte horas de trabalho. E, infelizmente o blog teve que dar um tempo. Até mais do que eu queria.

Mas, estamos de volta. Mesmo não tendo o mesmo tempo pra postar aqui como antigamente, eu vou tentar ser mais relevante, produzir coisas mais interessantes e, substituir a frequência pela qualidade. Algumas coisas vão mudar. E as mudanças serão perceptíveis…

Mas, vamos ao que interessa.

Uma das coisas que eu tenho me interessado nos últimos meses é sobre o óbvio. As pessoas esquecem tanto, mas tanto de fazer o “bê-a-bá”, apenas se preocupando com tópicos como criatividade, geração y, inovação, tecnologia, crescimento que esquecem de coisas óbvias como o marketing mix, o planejamento financeiro, o fluxo de caixa e etc. Ultimamente, é muito mais importante ser reconhecida como uma empresa inovadora do que uma empresa estável e lucrativa para somente depois crescer.

E por esse motivo, por esquecerem de cuidar do essencial, elas não sobrevivem às estatísticas. Fernando Trías de Bes, no seu Livro Negro do Empreendedor, aponta os Fatores Chaves de Fracasso.

Porém mais do que os fatores chaves do fracasso, existem os fatores óbvios do fracasso. Coisas simples, que qualquer curso de rotina administrativa ensina e, todo mundo esquece na hora de colocar em prática. Isso porque tópicos que estão em todas as revistas de negócios, vendas e economia não salientam o básico, mas sim enchem a cabeça do empreendedor de possibilidades, expectativas e falsas necessidades que, muitas vezes fazem com que ele esqueça o básico.

O Caito Maia é o fundador da Chilli Beans, a famosa empresa nacional de óculos de sol – que, mais recentemente, lançou sua linha de óculos Chilli Beans Vista – óculos de correção visual – e o vídeo abaixo é sobre a história da empresa que fundou. O que precisou estudar, como quebrou a sua primeira empresa por vender mais do que podia entregar e, como precisou, em um certo momento optar pelo controle financeiro ao invés do deslumbrado crescimento.

O que isso mostra? Mostra que, depois que nos atemos ao óbvio e mantemos a casa em ordem o tempo necessário para nos erguermos, enquanto vamos investindo no negócio para transformá-lo em algo lucrativo, podemos sim investir em inovação, em cultura, em criatividade, em geração y. Mas não da pra fazer isso, não da pra colocar a carroça na frente dos bois.

Primeiro o óbvio. Primeiro, os primeiros passos, o necessário, o primitivo. Assim, fazendo direitinho o “bê-a-bá” e o dever de casa, teremos oportunidade para partir para a fase do risco, da inovação e etc.

Eu sou a pessoa que mais ama assuntos como inovação, cultura empresarial e etc. Mas não gosto de ver pessoas colocando os pés pelas mãos ao trocarem as bolas e inverterem as prioridades do negócio.

Tenho um amigo em São Paulo que diz que a ordem é tudo e que, ao contrário do ditado que diz que a ordem dos fatores não altera o produto, ele diz que é justamente a ordem a responsável pelo sucesso ou pelo fracasso de um produto, uma empresa, um planejamento e uma ação.

Você ainda vai ler muito sobre o óbvio aqui. Mas, melhor ainda do que teoria é mostrar na prática como o descontrole e deslumbramento pode matar uma empresa e, como às vezes é preciso colocar o sonho de lado pra cuidar da saúde do negócio.

O Caito soube escolher sobre o óbvio no lugar do sonho. E, desde então, realizou os sonhos que nem sabia que tinha.

À Sua Maneira…

Quando assumiu o controle do Pão de Açúcar, no início da década de 90, o empresário Abilio Diniz adotou um estilo centralizador de gestão. “Eu era o presidente, o superintendente e o cara que estava com a mão na massa”, admite. Entre 2003 e 2007, Abilio alterou radicalmente sua postura. Passou a presidir o conselho do maior grupo de varejo do país e, mesmo quando achava que seus diretores estavam errados, deixava que eles tomassem as decisões para que aprendessem com seus erros. Com os resultados fracos apresentados pela empresa, Abilio resolveu mudar novamente. Em entrevista à gestora de recursos Rio Bravo, que investe em ações do Pão de Açúcar, ele revela que encontrou um meio-termo. Abilio Diniz voltou a trabalhar na mesma sala que os diretores e as decisões estratégicas só são tomadas se ele e o conselho estiverem convencidos dos benefícios. No entanto, o dia-a-dia da empresa ficou a cargo da diretoria. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Profissionalização: Quando tomei as rédeas da empresa nos anos 90 eu centralizei tudo comigo. Eu era o presidente, o superintendente e o cara que estava com a mão na massa. De 2003 para cá, decidi que essa empresa não poderia viver tão dependente de mim. E aí decidi pela profissionalização, com uma diretoria sem nenhum Diniz como executivo. Todos nós fomos para o conselho, presidido por mim.

Essa transição de uma empresa liderada por uma única pessoa durante muito tempo, para uma diretoria profissional não foi fácil. Nós tivemos cinco anos que passamos andando de lado (de 2003 a 2007). Felizmente no final de 2007, fizemos uma mudança, reestruturamos a diretoria executiva e, hoje, o crescimento da companhia, do início de 2008 pra cá, tem sido sensacional. Tudo aquilo que conseguimos é resultado deste clima, principalmente agora com um time altamente identificado. Temos um ambiente hoje que é realmente fantástico. Eu trabalho na mesma sala que eles, à disposição deles para o que precisarem. Agora o dia-a-dia é com eles

Estilo de gestão: De 2003 e 2007, deixei que a diretoria fizesse praticamente aquilo que quisesse e aprendesse através de seus erros. No início desta nova gestão, no final de 2007, declarei que não faria mais isso. Se houvesse alguma coisa que eu estivesse vendo acontecer com a qual eu não estivesse de acordo, a diretoria teria que me convencer. Se não me convencesse eu levaria para o conselho. Se não convencesse nem a mim nem ao conselho, não iriam fazer. Essa foi uma mudança. Só que com a diretoria que temos hoje não tivemos nenhum caso deste. Tem-se um ambiente diferente, de consulta, de respeito, de diálogo e de consenso. É claro que como tudo na vida há divergências, mas o importante é sabedoria para trabalhá-las, é tirar dali, senão um consenso, pelo menos um acordo de adesão que permita seguir em frente com o comprometimento de todos.

Compra do Ponto Frio: A compra da Globex [controladora do Ponto Frio] foi considerada estratégica pelo conselho do Pão de Açúcar. Há cinco anos na elaboração do planejamento estratégico, que é atualizado anualmente, definimos que teríamos que crescer e sermos muito fortes em não-alimentos. Temos os hipermercados que representam cerca de 50% das nossas vendas. Esse tipo de loja só se sustenta nos dias de hoje se for realmente muito eficiente no não-alimento. Lá você encontra toda a gama de não-alimentos: vestuário, eletroeletrônicos, artigos de informática, etc.

Portanto, os hipermercados têm que ser um canal de distribuição muito forte em não-alimentos, segundo o que acreditamos. Na questão dos eletroeletrônicos, é necessário escala e nós, com a venda somente nos supermercados e uma pequena rede de magazine, não tínhamos dimensão e escala suficiente para podermos oferecer uma opção de compra muito boa para o consumidor. Somos os primeiros e os maiores vendedores de informática no Brasil, mas no restante da linha nunca fomos tão fortes, embora tenhamos condições de financiamento melhores do que nos chamados especialistas.

Então, para que tenhamos escala, achamos que deveríamos fazer, nesse momento, uma aquisição que fosse oportuna, que nos desse uma outra dimensão e que desse um impulso na parte de eletroeletrônicos e móveis. Enfim, toda essa área vai crescer muito com a aquisição do Ponto Frio.

Sobre a virada do Ponto Frio: Se eles tivessem uma geração de caixa adequada, provavelmente não teriam vendido e nós não teríamos comprado nem teríamos muito o que fazer lá. A geração de caixa deles é baixa, há enormes oportunidades para uma gestão eficiente, que tenho certeza que vamos colocar e é isso que estamos visualizando pela frente. Estamos muito satisfeitos com a aquisição.

Sobre a compra do Assai: Desde o fim de 2007, estamos com o formato Assai, uma empresa em que inicialmente adquirimos uma participação de 60% porque não éramos detentores do know how para trabalhar no “atacarejo” [lojas especializadas em atender pequenos negócios, como restaurantes e pizzarias]. O formato “atacarejo” está sendo um sucesso em nossas mãos, estamos aumentando o número de lojas e vamos continuar fazendo isso.

Extra Perto: As lojas de vizinhança estão tendo mais sucesso principalmente pelas dificuldades de locomoção nas grandes cidades. É natural que quando a pessoa precisa de pequenas compras, dê preferência para as lojas de conveniência, muitas vezes muito próximos de suas residências. Lá o consumidor pode com facilidade adquirir os produtos que deseja sem ter que usar o carro. Vamos continuar nosso projeto, devemos abrir cerca de 50 lojas neste ano no formato Extra Fácil, que é o formato das lojas de conveniência. Da mesma forma que vamos continuar abrindo hipermercados, “atacarejos” Assai e supermercados, principalmente o Pão de Açúcar, onde são realmente as lojas que têm a nossa cara.

Abertura de capital: O caminho que eu mais gosto é de uma empresa aberta. O compromisso que você obtém em uma empresa aberta entre todos os gestores é enorme, pela visibilidade que uma empresa aberta precisa ter. Teoricamente não pode errar, não pode falhar – tem que estar sempre fazendo o seu papel e da melhor forma possível porque você está sendo constantemente vigiado. Eu gosto muito de empresas de capital aberto. Meu sócio francês [o Casino] é uma companhia de capital aberto. Não mudou nada com a entrada deles aqui. Somos uma empresa hoje com dois sócios controladores e o mercado. Acho extremamente importante a participação do mercado. Na realidade, um dos nossos membros do conselho (nós temos quatro membros independentes) é representante dos acionistas minoritários e ele é hoje um grande conselheiro para nós.

Como é controlar um grupo gigante como o Pão de Açúcar: Sou uma pessoa com visão de futuro sem perder a realidade do momento atual. Gosto de projetar metas, de ter planos B se as coisas não correrem como eu pensava. Em 1993 e 1994, quando eu adquiri o controle da companhia, eu já pensava em abrir seu capital para fortalecê-la. Vou fazer isso de forma ampla e vou buscar um sócio estratégico que me traga capital e que, se possível, me traga mais conhecimento e mais força. Segui por esse caminho e acho que tivemos sucesso. Não me incomodo em nada de compartilhar decisões, de discutir coisas com sócios. Acho que o importante é fazer as coisas mostrando aos outros que é o melhor caminho e não fazer simplesmente porque você tem o comando. Evidentemente trabalhar com o mercado às vezes não é tão fácil. Às vezes é difícil mostrar para o mercado exatamente o trabalho que você está fazendo, mas é o que tem que ser feito. Com relação aos meus sócios, por que nos damos tão bem? Porque todas as coisas que eu quero fazer, desde que eu tenha direito de fazer, eu digo a eles que quero fazer por esse e aquele motivo.

Relação com funcionários: Eu não quero sacrifícios. Eu quero funcionários com comprometimento e garra, mas com férias, com divertimento, cuidando das suas famílias e de si e que sejam felizes. Aquilo que faço para mim, eu prego para as pessoas que trabalham aqui dentro. O Abílio quer que a empresa continue crescendo com novos desafios. Mas aproveito muito e quero continuar aproveitando. Quero continuar aceitando os desafios, fazendo essa empresa crescer. Quero que ela gere empregos para o país. O problema do Brasil ainda é geração de empregos.

Planos futuros: Estamos praticamente em todos os formatos conhecidos do varejo, o que não quer dizer que não se invente outros. Tudo aquilo que existe de interessante na parte de distribuição e nós achamos que é adequado, estamos estudando. Estamos desenvolvendo fortemente o comércio eletrônico, a área de internet vai crescer muito mais com a integração do Ponto Frio que é bastante forte, praticamente do tamanho do Extra.