Era Uma Vez Jean Charles…

Ontem eu fui ao cinema assistir ao filme que fala de uma parte da trágica vida que Jean Charles teve na Ingleterra. O filme começa com a chegada de mais uma prima sua ao país e ele ainda no aeroporto mostra todo jogo de cintura necessário para ajudar a entrevista de sua prima na imigração e da uma primeirca lição. A confiança e a segurança são os grandes segredos. Tanto para ajudar nas explicações, para contar a verdade, quanto para a mentira. Jean realmente era um Brasileiro confiante que abandonou o Brasil em busca de oportunidades. Eu estava cheio de lições para escrever aqui sobre a conduta de Jean Charles. Entre elas ser companheiro e solidário. Jean foi pra Inglaterra e nas primeiras oportunidades levou todos aqueles amigos que estavam precisando de ajuda para tentar ganhar a vida em um outro país, onde para alguns, as oportunidades são diferentes. Jean não é companheiro apenas de seus amigos brasileiros. É parceiro dos caras que conhece e trabalha junto na Inglaterra. Nos primeiros vinte minutos de filme, além de ajudar a prima a entrar na Inglaterra, a conseguir um emprego, ele ajuda com companheiro de emprego a não ser demitido.

Não, Jean não era um santo. E eu nem você somos.

Jean conhecia um “pessoal” que conhecia “outro pessoal”, que participava do esquema de passaportes. No início do filme Jean alega que conseguiu o visto permanente para a Inglaterra por que é casado com uma inglesa. MENTIRA. Mas, uma vez dentro do jogo, você precisa se manter jogando. Como conseguir um visto permanente pra Inglaterra? Infelizmente pessoas que procuram empregos e oportunidades não são bem-vindos nos países que se julgam os melhores do planeta. É triste saber que somos encarados como bandidos e saqueadores em outros países. É triste, mas essa é a fama, não só dos brasileiros, mas de todos que saem com a cara e a coragem para procurar oportunidades mundo a fora. É por essas e outras razões que eu acredito que devemos nos dar valor e não nos humilhar por aí afora.

Eu iria contar a história de Jean na Inglaterra através de lições. De atitudes, ações e conselhos que ele deixou pra quem tava junto dele (1. Mentiras precisam ser bem contadas; 2. Fique quieto; fale somente o necessário; 3. Tenha sempre um plano b, ou esteja preparado para arcar com as consequencias; 4. Não se vislumbre facilmente; 5. AJUDE AS PESSOAS). MAS, ao ver a cena, em primeira pessoa, de um jovem BRASILEIRO sendo injustamente FUZILADO por quatro ou cinco políciais com mais de DEZ TIROS à queima roupa e pelas costas, o meu sangue ferveu. E mais do que apenas deixar as lições da pessoa que foi Jean Charles, eu vou usar esse artigo como uma forma de jogar um pouco de merda no ventilador.

Quando Jean Charles foi assassinado, em 2005, eu estava no segundo ano de faculdade. Quando vi a primeira notícia da morte de um brasileiro com suspeitas de envolvimento com o terrorismo, eu simplesmente desacreditei. A violência daqui, os protestos, as guerras, os problemas e as necessidades são diferentes. O Brasil não exporta terroristas. Nossa guerra não é a deles. Eu acredito que nenhum brasileiro em sã consciência deveria acreditar nisso. Qualquer estrangeiro que morra fora de suas terras é tratado como bandido. E o povo já acostumou-se a ficar quieto. MAS, eu me REVOLTO. O que o governo brasileiro fez para exigir a punição dos culpados de um jovem trabalhador? O que o governo brasileiro fez para ajudar a solucionar o caso? O que o governo inglês fez para SOLUCIONAR de vez o caso? O que o governo inglês fez para mostrar que estava comprometido com a VERDADE e que a Inglaterra não era um país RACISTA? Eles não fizeram nada. O Brasil, o ministro das relações exteriores, o presidente (?) Lula, ninguém fez NADA. A Inglaterra quis comprar a família de um pobre trabalhador brasileiro com sessenta mil reais. O governo arquivou o processo e não puniu nenhum dos envolvidos no assassinato.

Hoje Jean Charles virou uma história. Uma história de vergonha para a Inglaterra. Uma história de exemplo de preconceito e racismo. Afinal, Jean morreu porque foi confundido com um muçulmano. MAIS RACISMO AINDA. O filme sobre Jean Charles foi feito para mostrar ao mundo como os países mais evoluídos no quesito inteligência são vergonhosos. Como é ridícula a discriminação, o preconceito e o mais importante, que não é apenas aqui que a jstiça fica de lado.

Eu acho uma pena, por que mesmo o filme, com toda a ilustração da situação não vai conseguir demonstrar a atrocidade inglesa pelo mundo. O filme era pra ser um protesto, que deveria ser abraçado por todos os brasileiros, que tinham a obrigação de não deixar se apagar a COVARDIA daquele ato. MAS.. isso aconteceu em 2005. Hoje o assunto é outro. Jean Charles não vende mais jornais. O filme? Bem, não é o mais comercial dos filmes. O herói não tem super-poderes, sofre, se da mal, é pobre e no fim ainda morre covardemente. Que namorada, que amiga, QUEM vai aceitar um convite desses pra ir ao cinema.

O Matozo aceitou. Ele foi. E saiu com o coração do mesmo jeito que eu: cheio de rancor e raiva. Porque ANIQUILARAM covardemente um dos nossos longe daqui, e o seu povo, o seu governo, que deveria protegê-lo… NADA FEZ. O que eu fiz? Estou fazendo com que esse nome não seja esquecido. Fazendo com que essa história não seja mais uma estória. Que a Inglaterra não saia dando risadas como os políticos brasileiros e os assassinos do índio pataxó. Eu estou fazendo o que eu acho certo e digno. Estou escolhendo gritar pra todo mundo ouvir que ninguém pode agir covardemente com um brasileiro e ficar impune. Assista ao filme, encare a realidade e os fatos: o mundo é em preto e branco. Jean Charles é um filme pra assistir inúmeras vezes e lembrar o quanto existe de impunidade around th world.

Eu estou aqui pra gritar, pra berrar!! Quem mais vai fazer coro comigo?

“Se os bons morrem mesmo cedo, a triste sina não perdoa o erro. Apenas novos atores para um mesmo enredo (…) Almas sangram quando cai a noite. Quem serão os próximos atores? Senhoras e senhores”

Uma Nova Educação…

José Pacheco é o idealizador e fundador da Escola da Ponte em Portugal, uma escola que aboliu de vez da vida dos estudantes as salas, carteiras e principalmente as séries. Passeando pelo UOL, eu me deparei com essa entrevista desse excepcional educador e vou passar pra frente. Tenho certeza que ela passou desapercebida para muita gente por lá, e republicando eu mantenho a idéia viva.

O pai do meu avô era portugues. Veio fugido de Portugal para o Brasil. Na primeira vez, assim que desembarcou no Brasil, foi descoberto e mandado de volta e, assim que chegou de volta a Portugal, tratou de dar meia volta e correr de novo para o Brasil. Aqui ele conheceu a mãe do meu avô, e eles tiveram três filhos. Só mais tarde se descobriu que ele tinha uma família por lá… Eu estou a dois passos da nacionalidade portuguesa. Eu ainda vou a Portugal conhecer o sistema de ensino de lá e isso não vai demorar muito. Antes de Portugal entrar para a União Europeia, um misto de sorte e credibilidade, ele estava apagadinho alí na Europa e ninguém dava muita importância pra ele. Hoje, ele é tido como o país mais criativo e inovador do mundo.Eu acredito que a grande parte da criatividade de uma criança vem da educação, da infância, do lazer e da cultura. Todo mundo justifica a “titularidade” de Portugal como país mais criativo do mundo com a entrada dele na UE e com a unificação de diversos parâmetros entre os países, inclusive a educação. MAS, a Escola da Ponte foi fundade em 1976, bem antes da unificação da Europa. Será que não foi Portugal que serviu de exemplo para a educação européia? Pelo que tenho visto e lido ultimamente sobre a educação desse país, foi isso mesmo que aconteceu. E Itália, França e Suécia pegaram carona com Portugal. Hoje, esses três países servem de exemplo sobre como deveria ser a educação ao redor do mundo.

Acompanhe a íntegra da entrevista:

UOL Educação – Em suas andanças pelo país, qual o absurdo que mais chamou sua atenção?
Pacheco – O maior absurdo é que a educação do Brasil não precisa de recursos para melhorar. O Brasil tem tudo o que precisa, tem todos os recursos e os desperdiça.

UOL Educação – Desperdiça como?
Pacheco – Pelo tipo de organização. A começar pelo próprio Ministério da Educação. Eu brinco, por vezes, dizendo que o melhor que se poderia fazer pela educação no Brasil era extinguir o Ministério da Educação. Era a primeira grande política educativa.

UOL Educação – Qual o problema do ministério?
Pacheco – Toda a burocracia do Ministério da Educação que se estende até a base, porque a burocracia também existe nas escolas, à imagem e semelhança do ministério. No próprio ministério, o contraste entre a utopia e o absurdo também existe. Conheço gente da máxima competência, gente honesta. O problema é que, com gente tão boa, as coisas não funcionam porque o modo burocrático vertical não funciona. É um desperdício tremendo.

UOL Educação – Como resolver?
Pacheco – Teria de haver uma diferente concepção de gestão pública, uma diferente concepção de educação e uma revisão de tudo o que é o trabalho.

UOL Educação – O que teria de mudar na concepção de educação?
Pacheco – O essencial seria que o Brasil compreendesse que não precisa ir ao estrangeiro procurar as suas soluções. Esse é outro absurdo. Quais são hoje os autores que influenciam as escolas? Vygotsky [Lev S. Vygotsky (1896-1934)], Piaget [Jean Piaget (1896-1980)]? Não vejo um brasileiro. Mas podem dizer: “E Paulo Freire?”. Não vejo Paulo Freire em nenhuma sala de aula. Fala-se, mas não se faz.
Identifiquei, nos últimos anos, autores brasileiros da maior importância que o Brasil desconhece. Esse é outro absurdo. Quem é que ouviu falar de Eurípedes Barsanulfo (1880-1918)? De Tomás Novelino (1901-2000)? De Agostinho da Silva (1906-1994)? Ninguém fala deles. Como um país como este, que tem os maiores educadores que eu já conheci, não quer saber deles nem os conhece?
Há 102 anos, em 1907, o Brasil teve aquilo que eu considero o projeto educacional mais avançado do século 20. Se eu perguntar a cem educadores brasileiros, 99 não conhecem. Era em Sacramento, Minas Gerais, mas agora já não existe. O autor foi Eurípedes Barsanulfo, que morreu em 1918 com a gripe espanhola. Este foi, para mim, o projeto mais arrojado do século 20, no mundo.

UOL Educação – O que tinha de tão arrojado?
Pacheco – Primeiro, na época, era proibida a educação de moços e moças juntos. Só durante o governo Getúlio Vargas é que se pôde juntar os dois gêneros nos colégios. Ele [Barsanulfo] fez isso. Ele tinha pesquisa na natureza, tinha astronomia no currículo oficial. Não tinha série nem turma nem aula nem prova. E os alunos desse liceu foram a elite de seu tempo. Tomás Novelino foi um deles e Roberto Crema, que hoje está aí com a educação holística global, foi aluno de Novelino.

UOL Educação – Por que o senhor fala desses autores?
Pacheco – Digo isso para que o brasileiro tenha amor próprio, compreenda aquilo que tem para que não importe do estrangeiro aquilo que não precisa. É um absurdo ter tudo aqui dentro e ir pegar lá fora.

UOL Educação – Qual foi a maior utopia que o senhor viu?
Pacheco – O Brasil é um país de utopias, como a de Antônio Conselheiro e a deZumbi dos Palmares. Fui para a história, para não falar em educação. Na educação, temos Agostinho da Silva, que é um utópico coerente, cuja utopia é perfeitamente viável no Brasil. Ou seja, é possível ter uma educação que seja de todos e para todos. O Brasil, dentro de uns 30 ou 40 anos, será um país bem importante pela educação. São os absurdos que têm de desaparecer, para dar lugar à concretização das utopias. Acredito nisso, por isso estou aqui.

UOL Educação – Os professores são resistentes às mudanças?
Pacheco – Os professores são um problema e são a solução. Eu prefiro pensar naqueles professores que são a solução, conheço muitos que estão afirmando práticas diferentes.

UOL Educação – Práticas diferentes como a da Escola da Ponte?
Pacheco – Não são “como”, mas inspiradas, com certeza. São práticas que fazem com que a escola seja para todos e proporcione sucesso para todos.

UOL Educação – Dentro da escola tradicional, onde ocorre o desperdício de recursos?
Pacheco – Se considerarmos o dinheiro que o Estado gasta por aluno, daria para ter uma escola de elite. Onde o dinheiro se desperdiça? Por que em uma escola qualquer, que tem turmas de 40 alunos, a relação entre o número de professores e de alunos é de um para nove? Por que os laudos e os atestados médicos são tantos? Porque a situação que se criou nas escolas é a do descaso. Esse é um absurdo.

UOL Educação – Onde mais ocorre o desperdício nas escolas?
Pacheco – O desperdício de tempo também é enorme em uma aula. Pelo tipo de trabalho que se faz, quando se dá aula, uma parte dos alunos não tem condições de perceber o que está acontecendo, porque não têm os chamados pré-requisitos, e se desliga. Há um outro conjunto de crianças que sabem mais do que o professor está explicando – e também se desliga. Há os que acompanham, mas nem todos entendem o que o professor fala. Em uma aula de 50 minutos, o professor desperdiça cerca de 20 horas. Se multiplicarmos o número de alunos que não aproveitam a aula pelo tempo, vai dar isso.
O desperdício maior tem a ver com o funcionamento das escolas. Os professores são pessoas sábias, honestas, inteligentes e que podem fazer de outro modo: não dando aula, porque dar aula não serve para nada. É necessário um outro tipo de trabalho, que requer muito estudo, muito tempo e muita reflexão.

UOL Educação – As famílias não estão acostumadas com escolas que não têm classe, professor ou disciplinas. Querem o conteúdo para o vestibular. Como se rompe com esse tipo de mentalidade?
Pacheco – Pode-se romper mostrando que é possível. Eu falo do que faço, e não de teorias. O que fiz por mais de 30 anos foi uma escola onde não há aula, onde não há série, horário, diretor. E é a melhor escola nas provas nacionais e nos vestibulares. Justamente por não ter aulas e nada disso.

UOL Educação – Por que uma escola que não tem provas forma alunos capazes de ter boas notas em provas e concursos?
Pacheco – Exatamente por ser uma escola, enquanto as que dão aulas não são. As pessoas têm de perceber que não é impossível. E mais, que é mais fácil. Posso afirmar, porque já fiz as duas coisas: estive em escolas tradicionais, com aulas, provas, com tudo igualzinho a qualquer escola; e estive também 32 anos em outra escola que não tem nada disso. É mais fácil, os resultados são melhores.

UOL Educação – Na concepção do senhor, o que é uma boa escola?
Pacheco – É a aquela que dá a todos condições de acesso, e a cada um, condições de sucesso. Sucesso não é só chegar ao conhecimento, é a felicidade. É uma escola onde não haja nenhuma criança que não aprenda. E isso é possível, porque eu sei que é. Na prática.

UOL Educação – O professor que está em uma escola tradicional tem espaço para fazer um trabalho diferente? O senhor vê espaço para isso?
Pacheco – Não só vejo, como participo disso. No Brasil, participei de vários projetos onde os professores conseguiram escapar à lógica da reprodução do sistema que lhe é imposto. Só que isso requer várias condições: primeiro, não pode ser feito em termos individuais; segundo, a pessoa tem de respeitar que os outros também têm razão. Se, dentro da escola, os processos começam a mudar e os resultados aparecem, os outros professores se aproximam. Não tem de haver divisionismo.

UOL Educação – O senhor acha que a mudança na estrutura da escola poderia partir do poder público ou depende da base?
Pacheco – Acredito que possa partir do poder público, mas duvido que aconteça. As secretarias têm projetos importantes, mas são de quatro anos. Uma mudança em educação precisa de dezenas de anos. Precisa de continuidade. E isso é difícil de assegurar em uma gestão. Precisa partir de cada unidade escolar e do poder público juntos.

Quando vamos tem um projeto à La Escola da Ponte por aqui??