Paulo Veras é diretor do Instituto Endeavor. O Instituto Endeavor apóia diretamente 35 empresas com orientação técnica para o crescimento do negócio. Cerca de 240 empresários voluntários são ligados ao Endeavor e se dispõem a assessorar outros empreendedores, sem qualquer custo. No ano passado, os negócios apoiados tiveram aumento médio de 40% no faturamento, com receita agregada superior a R$ 1,3 bilhão e 10,5 mil empregos gerados.
Para o diretor da Endeavor, o momento certo de investir é o momento em que a pessoa está segura dos riscos e à inovação.
Como foi o desempenho do empreendedorismo no Brasil no último ano?
Paulo Veras – Muito bom para o Brasil e para o empreendedorismo. Vimos um desenvolvimento expressivo das pequenas e médias empresas, impulsionado pelo boom econômico que ocorreu no mundo inteiro, mas também pela maior oferta de crédito a juros mais baixos para os empreendedores brasileiros. Dados do Sebrae apontam 2007 como o ano de melhor desempenho das micro e pequenas empresas na última década.
Algumas leis importantes começam a ter impacto na economia a partir deste ano, como o Super Simples. O que se pode esperar da performance das empresas de pequeno e médio portes nesse novo cenário?
Veras – O grande passo do Super Simples na direção certa, independente da meta de redução de carga tributária, é o fato de simplificar processos e evitar erros, porque um dos grandes problemas no Brasil para empreender é a complexidade do sistema tributário. Muitas vezes, as empresas têm multas ou não conseguem tirar uma certidão negativa, não por má-fé ou por sonegação, mas porque o sistema é tão complexo, que ela acaba errando, seja no recolhimento, seja nos relatórios para a Receita Federal e Fazenda Estadual, e o Super Simples ajuda muito nesses aspectos.
E em relação ao desempenho da economia com o Super Simples, devemos ter alguma mudança significativa?
Veras – Em curto prazo, não. A maior mudança que o Super Simples trará não diz respeito a impulsionar a economia, mas a facilitar a formalização de empresas que hoje são informais. Por exemplo, o crescimento na arrecadação federal, nos últimos dois anos, tem sido muito maior do que a evolução do PIB, e sem aumento de alíquota. Boa parte desse desempenho se deve à formalização da economia, e isso tem um impacto muito positivo para o Brasil. Somos um País em que 50% da economia é informal, ou seja, as empresas formais pagam o dobro do que precisariam. A partir do momento em que mais empresas comecem a contribuir, abre-se espaço para a redução da carga tributária, e teremos um grande estímulo para o desenvolvimento econômico.
O senhor acha possível uma redução real de carga tributária?
Veras – Não tenho a mínima dúvida. É um movimento que deve acontecer, sim.
Como o País está posicionado mundialmente em relação ao empreendedorismo?
Veras – O Brasil tem um posicionamento ambíguo. É um país que figura no topo dos rankings porque tem uma massa muito grande de empreendedores. Por outro lado, quando se fala de empreendedor de alto impacto, que pensa grande, tem ambição, infelizmente ainda estamos mal. O estudo do Global Entrepreneurship Monitor (GEM – Monitor Global de Empreendedorismo, na sigla em inglês) mostra que, no Brasil, para cada empreendedor de oportunidade, que é aquele que quer crescer, existe um de subsistência. Nos países mais desenvolvidos, a relação é de dez empreendedores de oportunidade para cada um de necessidade. Então, isso muda completamente o perfil dessa pessoa e o impacto que ela tem na economia. Nesse quesito, estamos ainda muito mal posicionados, os empreendedores brasileiros, em geral, não são muito inovadores, não se preocupam com crescimento e não têm grandes sonhos.
O senhor costuma dizer que empreender não é fácil em qualquer lugar. Quais são as características que diferenciam o Brasil – para o bem ou para o mal – como cenário para o desenvolvimento do empreendedorismo?
Veras – Normalmente, as pessoas só vêem o lado ruim, mas a moeda tem dois lados. Nossos fatores negativos mais marcantes são aqueles que todo mundo conhece: burocracia, legislação trabalhista ultrapassada, dificuldades para abrir empresas, crédito caro – apesar do movimento para barateá-lo, nossa taxa de juros real ainda é uma das mais altas do mundo. Essas são coisas que no Brasil são piores do que no resto do mundo. Mas também tem um lado positivo, que pouca gente fala. O Brasil é um país que ainda tem uma avenida para empreendedores que queiram crescer, porque essa postura não é comum aqui, então, quem tiver será muito mais competitivo do que o resto, que só quer fazer o básico. Para empreendedores mais ambiciosos e preparados, existe um terreno muito mais fértil no Brasil do que lá fora, onde a concorrência é muito mais acirrada. Outro fator interessante é que achar gente talentosa no Brasil é mais fácil do que lá fora, porque temos boas universidades, e a competição por talentos é menor. Montar um bom time aqui é bem mais fácil – e mais barato – do que nos Estados Unidos, por exemplo.
Quais são os setores mais promissores da economia atualmente?
Veras – Tecnologia da informação, certamente, é um deles. A biotecnologia também deve crescer bastante, é um segmento que está se desenvolvendo mais, com mais cursos e empresas envolvidos. Além disso, o setor de serviços, em geral, tende a crescer muito no mundo inteiro, principalmente nesse ciclo que estamos vivendo, em que a base da manufatura está migrando para a Ásia. Isso abre espaço para o setor de serviços, e o Brasil começa a competir melhor nesse campo também.
Qual é a sua recomendação para quem quer começar a empreender?
Veras – Faça. É sempre bom se preparar, acessar informações na página do Sebrae, do Instituto Endeavor, entender melhor o que o empreendedorismo significa, tudo isso ajuda muito. Mas nada substitui o fazer. As pessoas sempre perguntam se existe o momento certo para empreender. O momento certo é aquele em que a pessoa se sente segura e preparada para fazer. Este será um bom ano para empreender, então a dica é esta: se preparar e fazer.
Coments